Texto publicado em outubro de 2018 no Blog da SM SCOPO. Já fizemos as correções. 😉

Há cerca de 10 meses eu e a mulher da minha vida, @gisellekhoury, nos lançamos de corpo e alma em uma idéia nova e em um projeto revolucionário. Com grandes sócios, parceiros e colaboradores estruturamos um complexo sistema de análise, filtragem e determinação de padrões em redes sociais e internet, em modelos de classificação estatística e computacional que sequer existiam; e direcionamos esta análise para o âmbito político, para as eleições que estavam se estruturando. Nascia o SM SCOPO.

Logo nos deparamos com a grandiosidade de computar análises e comportamentos em um País Continental, com quase 150 milhões de eleitores, bilhões de publicações em redes socias e literalmente trilhões de dados em rastros individuais em dezenas de fontes diferentes. Logo uma estrutura computacional distribuída estava analisando cerca de 8gb de dados em texto puro por segundo (para efeitos de comparação, isto equivale a 500 listas telefonicas da cidade de São Paulo…por segundo).

Não havia (e, infelizmente, ainda não há) no Brasil estrutura computacional, pessoal técnico ou apoio para este tipo de iniciativa (ou qualquer iniciativa de tecnologia de grande porte). Tivemos que contratar sistemas de bigdata e processamento ao redor do planeta, utilizando técnicos e cientistas de dados da Malásia, Mongólia, India, EUA e Paquistão. Pagando por hora e em dólar. Gastamos o que tinhamos e não tinhamos para levantar o sistema, criando referências, modelos e datasets que até então sequer existiam em português. E na jornada nos deparamos com pessoas igualmente motivadas, inteligêntes e determinadas. (@Raissa, @Juliano, @AntonioCarlos, @Senise… Vcs foram a maior e melhor surpresa dentro do sistema desenvolvido).

Mas, embora tenhamos acertado e feito a diferença em algumas avaliações e inferências de campanhas em que começamos a atuar mais cedo (como a do Fernando Francishini, no PR, com recorde histórico de votações, por exemplo), erramos na determinação potencial de votos de campanhas que avaliamos em cima da hora. Bem como na determinação de resultado da campanha presidencial para o 1º turno. Como aquele aluno que estudou com afinco durante todo ano, tinha convição do que conhecia e passou as respostas das questões para os seus colegas e foi surpreendido por uma nota mais baixa, fomos atropelados por resultado eleitoral completamente fora da curva do que o sistema havia projetado. Explico:

Confiamos completamente em um modelo de projeção de cenários e preferências, que apontava de forma clara os índices de intenções e rejeição para cada candidato. Modelo que mostrava claramente quase 28% de alinhamento com o Bolsonaro e cerca de 17% de rejeição ao candidato. Igualmente, mostrava Haddad abaixo, com um pouco menos de rejeição e Ciro Gomes crescendo, com um índice de rejeição bastante menor (cerca de 7%). Nos adiantamos na divulgação deste cenário, apontando os 27/28% do Bolsonaro e a potencial disputa com o Ciro em 2º turno. Pagamos um mico público. Deixamos de computar alguns fatores cruciais na análise:

Sistemas de escolha no cenário político são emergentes e caóticos. Haviamos previsto isto, mas existem três modelos principais na avaliação de sistemas emergentes: Em sistemas caóticos de primeiro nível, a previsão não afeta o resultado. É o que ocorre na previsão do tempo ou de um tornado, por exemplo. Prever uma frente fria não afeta a frente fria, apenas informa para que as pessoas saiam agasalhadas. Em sistemas caóticos de segundo nível, a previsão afeta o resultado; é o modelo de projeção em mercados financeiros: Se o dólar estiver a US$3,00 e um sistema prever sua alta para US$4,00 no dia seguinte, no mesmo dia a moeda irá superar os US$4,00.

Além de incorporarmos modelos de primeiro nível, na análise fria da tendência individual, ignoramos a herística comportamental na bipolarização límbica da escolha coletiva. É o chamado ‘voto útil’. Muitas pessoas que tinham preferência pelo Amoedo, Alckmin ou outro candidato, e mesmo antipatia pelo Bolsonaro, votaram nele pelo medo da eleição do candidato que representava o PT, e vice-versa. Os votos se concentraram em duas pontas opostas de um padrão heurístico comportamental. Ao custo da credibilidade do que haviamos previsto e divulgado antecipadamente.

Hoje eu estava desmotivado e triste, frente a fortuna investida, milhões (literalmente) de linhas de código e da primeira falha pública numa projeção em que haviamos apostado milhares de horas de trabalho quando a Giselle veio, me deu um beijo, olhou nos meus olhos e disse algo com que concordo e compartilho com vocês:

“- Nos estamos apenas começando!”

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